Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado pra durar

Abelha fazendo mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for e ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado, meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver

Amor de Índio (Beto Guedes/ Ronaldo Bastos) – Milton Nascimento (mas a versão do Roupa Nova também é ótima)

Eu tinha pensado em postar aquela música da Baby Consuelo (sim, porque nessa época ela não era do Brasil e eu acho a Baby do Brasil uó, gosto mesmo é da Consuelo!), que fala que “todo dia era dia de índio”. Isso porque, qualquer pessoa que me conhece minimamente sabe que eu sou totalmente anti-dia-de-qualquer-que-seja-a-coisa. Acho que isso é sempre uma medida pra fingir que é tudo lindo e sem preconceito, sendo que, se as coisas fossem mesmo lindas, não precisaria haver dia especial de nada. Há um dia da mulher, porque no resto do ano, a sociedade caga e anda pra gente. O dia do orgulho gay, porque no resto do ano a galera é homofóbica e taca um foda-se pra qualquer pessoa que escolheu uma opção menos ortodoxa de ser feliz sexualmente. Aí colocamos um dia da consciência negra, pra poder chamar a galera de macaco nos outros 364 dias. E pra acalmar a comunidade que é a primeira e verdadeira dona de tudo isso aqui que chamamos de Brasil, escolheram o dia 19 de abril pra chamar de Dia do Índio e aí eu super concordo com a Baby, porque pra mim, todo dia é mesmo dia de índio, dia da mulher, dia da consciência negra, dia do orgulho gay. Minoria ou não, somos tão relevantes pro maquinário da sociedade quanto os brancos, homens e heteros. Todos somos peças dessa imensa engrenagem e não é um simples fator diferencial que vai mudar isso…

Eu como neta de português e negros, bisneta de índios e franceses sou uma super mistura de tudo que acabou formando o Brasil. Não sou branca, não sou negra, não sou índia, sou o mix, sou aquilo que fez dos brasileiros um povo tão único e ao mesmo tempo tão heterogêneo e que, por conta disso, deveria ser o país mais de braços abertos do mundo pra aceitar toda e qualquer diferença. Mas não precisa ser nada genial pra saber que isso não é verdade. Somos um povo extremamente preconceituoso, olhamos torto para aquele que não é nosso igual, seja ele negro, índio, japonês, boliviano, gay, bissexual, analfabeto, gordo, mendigo, deficiente mental, deficiente físico, idoso etc. Tudo que difere minimamente do nosso eu é visto de maneira discriminatória e essa é uma nódoa que faz parte da herança do brasileiro e que é muito difícil de modificar.

Ainda assim, acabei optando por Amor de Índio, porque fala de algo que precisamos verdadeiramente nas nossas vidas. Amor, admiração às coisas mais simples da vida, de curtir cada dádiva da natureza e do mundo – como os índios faziam no começo de sua história e de sua relação tão íntima com cada detalhe que a natureza oferece a cada um de nós. A gente precisa disso, dessa pureza e dessa delicadeza, para a partir daí construir um país mais justo e humano. Porque de demagogia nós somos é muito bons, mas o mundo já está farto disso.

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