Reviver tudo o que sofreu
Porto de desesperança e lágrima
Dor de solidão
Reza pra teus orixás
Guarda o toque do tambor
Pra saudar tua beleza
Na volta da razão
Pele negra, quente e meiga
Teu corpo e o suor
Para a dança da alegria
E mil asas pra voar
Que haverão de vir um dia
E que chegue já, não demore, não
Hora de humanidade, de acordar
Continente e mais
A canção segue a pedir por ti

África, berço de meus pais
Ouço a voz de seu lamento
De multidão
Grade e escravidão
A vergonha dia a dia
E o vento do teu sul
É semente de outra história
Que já se repetiu
A aurora que esperamos
E o homem não sentiu
Que o fim dessa maldade
É o gás que gera o caos
É a marca da loucura
África, em nome de deus
Cala a boca desse mundo
E caminha, até nunca mais
A canção segue a torcer por nós

Lágrimas do Sul – Milton Nascimento

Dia 13 de maio de 2010: 122 anos de abolição da escravatura. Mais de um século e tanto preconceito, discrimação e racismo continuam tão presentes na cultura brasileira. Um país que tem no DNA do seu povo uma miscigenação sem precedentes, uma nação onde todo mundo carrega seu quinhão de negro, índio e europeu (seja lá qual for) em seu genótipo. E a maior parte das vezes, por conta do fenótipo querem excluir, diminuir, desrespeitar alguns.

Eu sou isso aqui, filha de pai negro (filho de um português com uma negra retinta) e de uma mãe branca (neta de português, francês e índio), que falo que sou filha de negro e me olha com cara de “até parece!”, afinal, nasci de cabelo liso e uma pele morena desbotada. Mas basta olhar pro meu nariz de batata (quase uma fornalha) e minha testa e ver que não nego a raça que minha vó me legou no DNA. Assim como o cabelo liso, apesar da predominância do cabelo crespo na genética, é a herança que minha bisavó índia me deixou. E esse tom de pele moreno indefinido é bem o resultado de toda essa mistureba racial que fez de mim o que sou.

E por conta disso que não consigo compreender um preconceito tão forte se perpetuando por mais de um século. Hoje é um dia que não merece ser celebrado, porque marca nada mais que uma nódoa no nosso passado. O maior país da América Latina e o último a deixar de ter mão de obra escrava. Uma nação com uma complexidade cultural, racial e religiosa tão grande, e que, ainda assim, continua e continuará por muito tempo fingindo que racismo não existe, que negro gosta de se fazer de vítima, mas que ainda assim fecha os vidros do carro correndo quando algum negro se aproxima.

Neguinho tem vergonha de dizer que tem tataravó negro, mas aí, na hora de levar vantagem, mesmo sendo loiro, se lembra disso, pra ser merecedor do sistema de cotas universitárias. O país da dissimulação… O país dos espertos… Um país que mente pra si mesmo… O país da farsa muito mal disfarçada… E há 122 anos temos virado, cada dia mais, especialista nisso…

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