Sei que há leguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a Primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim

Tanto Mar – Chico Buarque

Hoje faleceu José Saramago, o maior escritor que a Língua Portuguesa já teve. Inteligente, contundente, de um estilo muito próprio (e único). Um cara que eu descobri graças ao vestibular, uma vez que figurava em todas as listas de leitura obrigatória, e que aprendi a amar do alto de meus 16 anos de idade. Um tipo de leitura, que no começo me ofereceu um grau de dificuldade além do que eu esperava, eu, leitora voraz desde os meus 4 anos de idade, que nunca consegui ficar diante de um livro sem devorá-lo. Ao começar a ler Memorial do Convento confesso que me assustei e que demorei mais do que o meu normal para concluí-lo. Porém, depois reli e fui me encantando com a história de Baltasar e Blimunda e da construção do convento de Mafra. E por me interessar tanto pelo livro e por destrinchar seu enredo, sempre digo que devo a Saramago e a Memorial do Convento a minha aprovação nos vestibulares da USP e da Unicamp, uma vez que, em ambas as provas, o livro foi a questão dissertativa de Português da segunda fase e sobre a qual eu soube discorrer com muita facilidade.

Em 1997, quando eu já estava cursando História, lembro-me que ele veio ao Brasil para lançar o livro Terra, junto com Chico Buarque e Sebastião Salgado, e por conta disso houve um evento no Mackenzie – que estava lotaaaaaaado… Fui com uma amiga da faculdade, a Renata, e consegui me espremer até o palco e conseguir um autógrafo do Saramago na minha edição de Memorial do Convento. Fui pra casa radiante, nem dormi direito. E hoje, logo que acordei, recebi do Thi a notícia de que ele havia falecido e fiquei profundamente triste. Estou tocada e não parava de pensar na enorme perda sofrida pela literatura. E achei engraçado que, de um momento para o outro, todo mundo passou a ser admirador de Saramago – coisas que só a necrofilia da arte explica… o.O

Por conta da parceria em Terra, a música para celebrar Saramago só poderia ser do Chico Buarque. E há varios porquês para ser esta… =)

Um adendo à respeito dessa música: essa na verdade é a segunda versão que o Chico escreveu para Tanto Mar, pois a primeira foi censurada, uma vez que era uma saudação à Revolução dos Cravos, que aconteceu em abril de 1974, em Portugal, e derrubou o regime ditatorial que se estendia desde 1933, uma amarga herança deixada por Salazar para os portugueses. Essa primeira versão foi gravada num espectáculo ao vivo com a Maria Bethânia, que depois foi passado para em 1975. Já a segunda versão, que é essa que eu posto, foi gravada no início de 1976 e serviu também como um marco ao fim do período mais duro da ditadura que era imposta ao Brasil.

Eu, como boa graduada em História que sou, não poderia deixar de mencionar essa música, porque além de amá-la, não deixa de ter ligação direta com Saramago, que na época da Revolução dos Cravos trabalhava como diretor-adjunto do Diário de Notícias, um importante jornal de Portugal, e que na época fez uma intensa cobertura desse importante acontecimento histórico.

E como curiosidade mesmo, o cravo vermelho tornou-se o símbolo dessa revolução porque quando esse movimento estourou. Logo ao amanhecer o povo começou a juntar-se nas ruas, juntamente com os soldados revoltosos. Uma florista que levava cravos para um hotel teria dado um cravo a um soldado, que o colocou no cano da espingarda.Os outros soldados vendo a rua cheia de floristas o imitaram, enfiando cravos vermelhos nos canos de suas armas. E fizeram uma revolução digna de Gandhi, totalmente pacifista e extremamente simbólica.

Saramago é, de fato, um imortal e deixou seu nome para sempre nas suas obras magistrais!!!

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