Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava.
De olhos abertos, lhe direi:
– Amigo, eu me desesperava.
Sei que, assim falando, pensas
Que esse desespero é moda em 73.
Mas ando mesmo descontente.
Desesperadamente eu grito em português

À Palo Seco (Belchior) – Ednardo

Um monte de gente já gravou, até Los Hermanos, mas a versão que eu mais gosto mesmo é a do Ednardo. E o trecho de hoje foi escolhido para mostrar toda a minha insatisfação com uma sociedade acomodada, que não faz nada de concreto para melhorar nada, mas que acha que vai mudar o mundo twittando ou mudando o avatar no Facebook.

Hoje só consegui ver uma bóia de salvação nos tweets da Lelê (ao menos eu vejo que sei escolher bem os meus amigos, porque gente pra seguir por lá, já vi que tenho vocação pra escolher só porcaria…). E a questão não é nem de concordar ou discordar com algo – no caso a pauta do dia foram os estudantes da USP – mas sim de ser coerente com o que fala (ou escreve) e o que faz. E além da falta de coerência, eu me senti no final do século XIX, tamanha a postura reacionária dos tweets. Sei lá, acho que estamos retrocedendo no tempo e só eu não percebi.

E pensar que há menos de 30 anos, centenas de milhares de pessoas iam às ruas pedir por eleições diretas, há 40 anos tinha gente (como o meu pai) sendo barbaramente torturada pra acabar com uma ditadura que só nos permitia dizer amém a tudo aquilo que eles nos empunham. Dói saber que meu pai foi espancado, perdeu todos seus dentes para trazer liberdade pra esse bando de alienados ficarem apoiando PM que espanca estudantes, professores ou qualquer outro tipo de manifestante. Pra esse povo chamar grevista de vagabundo. Pra pedir a volta da ditadura.

O que esse bando de idiota nem para pra pensar é que, se não fosse por todos esses “vagabundos”, eles não estariam vociferando essas barbaridades no Twitter. Chega a me dar desgosto. E pensar que tão perto daqui, os argentinos (apesar de voltarem mal pra diabo) são completamente engajados e envolvidos com todo política. Toda hora estão se unindo, organizando manifestações, piquetes, greves, e bem ou mal, apesar de votarem como paulistas (e isso está bem longe de ser um elogio, ok!), acabam conseguindo conquistar algumas coisas, já que sabem lutar por isso e fazem valer seus direitos ao passo que exercem, de fato, seus deveres de cidadãos.

E aí, enquanto esse povo bota avatar de desenho achando que vai acabar com a violência infantil ou twitta #forasarney, crente que isso é mesmo uma manifestação, eu sigo me desesperando e me sentindo como Quixote combatendo os moinhos…

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