Quero a utopia, quero tudo e mais

Quero a felicidade nos olhos de um pai

Quero a alegria muita gente feliz

Quero que a justiça reine em meu país

Quero a liberdade, quero o vinho e o pão

Quero ser amizade, quero amor, prazer

Quero nossa cidade sempre ensolarada

Os meninos e o povo no poder, eu quero ver

São José da Costa Rica, coração civil

Me inspire no meu sonho de amor Brasil

Se o poeta é o que sonha o que vai ser real

Bom sonhar coisas boas que o homem faz

E esperar pelos frutos no quintal

Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?

Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter

Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida

Eu viver bem melhor

Doido pra ver o meu sonho teimoso um dia se realizar

Coração Civil – Milton Nascimento

Hoje o único assunto que permeou minha timeline desde o começo do dia até o presente momento foi a tragédia da balada em Santa Maria (RS). Como qualquer assunto desse porte, para a nossa sociedade, sedenta de sangue e tragédia, virou um show, de lamentações, de horrores e de diversos tipos de manifestação. Percebi lutos sinceros (principalmente dos que sabem que poderiam viver uma situação semelhante, ainda que em outro lugar), gente baba-sangue postando fotos de extremo mau-gosto, vi maria-vai-com-as-outras que lamentam a morte de qualquer um que seja lamentado por mais de 3 pessoas e vi gente que se aproveita da dor e ingenuidade alheia para se promover. Inegavelmente essa foi a pauta do dia.

Mas eu penso que independente da crença religiosa de alguém ou de sua índole, não há uma pessoa com um mínimo equilíbrio psicológico que não se abale com um acontecimento dessa dimensão. É muita dor e sofrimento contido num só fato para que não faça com que mandemos as melhores vibrações e preces para os familiares de tantas vítimas. Eu não vou mentir, ser hipócrita e dizer que fiquei triste, isso porque foi algo distante de mim. Mas sem dúvida, fiquei chocada, e imediatamente comecei a pensar no que as pessoas envolvidas estão passando, assim como o faço em situações de guerra, de catástrofes naturais, ataques terroristas e afins. Porque por mais que não tenha relação direta comigo, no fim tem relação com a humanidade contida em cada um, e aí um sentimento que não sei explicar, que é um misto de solidariedade, companheirismo e até mesmo tristeza toma conta de mim.

Porém, eu preciso dizer que acho muitas vezes as reações desproporcionais, e vi uma comoção nacional maior do que em muitos casos seríssimos, como por exemplo de chuvas e deslizamentos, que às vezes tem até mais mortos dos que esses de Santa Maria e ainda deixam um rastro absurdo de vítimas, desabrigados e mesmo assim, no máximo vejo gente falando um “puxa, que coisa”. Hoje, ao passo que vi campanhas recrutando médicos, bombeiros, profissionais da área da Psicologia e Psiquiatria para amparar os familiares, doações de sangue e mobilizações sinceras e úteis de fato, vi também gente pedindo doações de dinheiro, roupas e afins para os familiares das vítimas. Gente, pera lá… Como assim… No calor da emoção muita gente não raciocina e serve de massa de manobra pra quem age de má fé. Os familiares das vítimas precisam de ajuda e apoio sim, mas não de nada material. Essas pessoas estavam em casa, provavelmente dormindo, no momento em que seus familiares faleceram. Eles não precisam de doações. Eles precisam de vibrações, preces, suporte emocional. E os sobreviventes precisam de agentes de saúde, doações de sangue etc. Os bens materiais que, eventualmente, forem doados, seguramente serão desviados. E isso me doeu mais do que tudo, porque pude ver gente que se aproveita de uma tragédia alheia para lucrar e manipular as pessoas.

Quem me conhece sabe que eu acredito no ser humano, sei que há muita gente boa, legal e honesta nesse mundo, porém essas tem mais publicidade do que os que aprontam. Acredito num mundo melhor que seja fruto de nossas atitudes mais decentes, atitudes essas que devem alimentar o nosso dia a dia e serem aplificadas em momentos como o de hoje, e não apenas existir nessas ocasiões. Sonho com gente pensando no todo, no coletivo e não apenas no seu próprio bem. Sonho que estender a mão seja um ato quase que reflexo. Muito mais do que palavras e preces, nossos atos devem refletir aquilo que queremos e esperamos do mundo. Coração Civil pra mim é um hino que clama por tudo isso e uma das músicas do Milton que mais me falam ao coração. E hoje está aqui para que sirva de reflexão, de brado e de prece a tudo que aconteceu hoje e como isso se refletiu na nossa vida.

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